Entender e aprender como projetar e construir uma cidade. Foi o que motivou Elza Kunze Bastos a escolher a Arquitetura e Urbanismo como sua profissão e paixão quando era menina nas ruas de Brasília. Considerada uma das pioneiras a desbravar a profissão no país, acompanhou de perto a construção da Capital Federal, cidade reconhecida pelo seu conjunto arquitetônico e urbanístico e berço de obras de grandes nomes como Oscar Niemayer e Lúcio Costa. Aposentada e no alto de seus 80 anos de vida, tem uma única certeza: o fazer a arquitetura não deve parar. Por isso, segue trabalhando em seu próprio escritório ao lado de seus estagiários porque sabe que em todo o projeto há muito a ensinar e a aprender.

Com 53 anos de profissão, a arquiteta e urbanista contribuiu para o desenvolvimento de diversas cidades brasileiras. Em Brasília, foi responsável pelo projeto de 200 residências do Lago Norte ao Lago Sul, além de obras em periferias. Enquanto trabalhava na Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), participou da elaboração de planos diretores de Cuiabá, Recife e Salvador.

Nascida no Mato Grosso, a arquiteta e urbanista morou até 1957 em Londrina, no Paraná. Lá, a família era uma das maiores produtoras de café e proprietária de farmácias. Porém, nos anos de 1954 e 1956, duas geadas afetaram os cafezais dos Kunze. Foi quando Elza, os pais e os quatro irmãos foram morar em Brasília. “Lembro-me que meu pai disse: nós desbravamos o norte do Paraná e agora vamos desbravar o Cerrado”, recorda.

Na época com 15 anos, Elza assistiu de perto as obras que ergueram a capital do país. “Eu acompanhei Brasília crescer”, conta. A fim de sanar toda a curiosidade de adolescente e entender efetivamente como se construía uma cidade, em 1962, dois anos após a inauguração da capital, ela ingressou no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB). Foi o primeiro vestibular da faculdade, inaugurada naquele ano. “Veio gente de todo o Brasil fazer o vestibular. Foi muito concorrido. Quando vi meu nome, fiquei encantada”, lembra.

Hoje, segundo Elza, as mulheres são a maioria no curso de Arquitetura e Urbanismo das universidades, diferente de sua época. “Só tinham duas mulheres na minha turma. Eu e uma bolsista italiana. Agora, elas são 70% a 75%”, afirma. Porém, mesmo com grande representatividade na categoria, elas seguem lutando diariamente por seus direitos. Para a arquiteta e urbanista, saber como se posicionar é essencial neste caso.

No terceiro ano da graduação, Elza começou a estagiar como desenhista no Departamento de Água e Esgoto (DAE), atualmente Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Foram dois anos como desenhista, até que foi contratada como arquiteta e urbanista do órgão, onde ficou até 1974. Depois disso, prestou concurso para o Ministério do Interior, hoje órgãos regionais, onde atuou na Superintendência do Centro-Oeste (Sudeco) e na Codevasf até se aposentar.

Elza foi responsável pelo projeto do edifício sede da companhia, em que trabalhou durante 26 anos. “Eles resolveram comprar um terreno para construir uma nova sede e me convidaram para fazê-lo”, conta. Em 1976, o projeto foi exposto na Bienal de São Paulo e resultou em uma de suas maiores conquistas: o prêmio de melhor edifício público daquele ano. “Realmente, qualquer premiação e elogio pelo seu trabalho é muito gratificante. Foi muito bom”, lembra sobre a sensação de receber o reconhecimento.

Filha de mãe alemã e de pai português, Elza foi a primeira mulher a presidir o Sindicato de Arquitetos do Distrito Federal (Sinarq-DF, hoje Arquitetos DF) em 2002. A profissional ficou na diretoria do sindicato por duas gestões. Além de militar pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, Elza também lutou pelo pagamento do salário mínimo profissional para professores e servidores públicos.

Defensora da categoria e apaixonada pela profissão, conta que sempre participou de reuniões de planos diretores de Brasília, foi atuante junto ao Congresso e, até hoje, segue contribuindo para o desenvolvimento da cidade. Atualmente, é diretora de desenvolvimento urbano da Prefeitura Comunitária do Largo Norte, onde mora. “Participo das reuniões da associação há 40 anos e irei morrer como diretora”, sentencia. Elza tem mestrado em História da Arte pela Faculdade de Arquitetura de Roma, doutorado em Planejamento Urbano pela Real Academia de Artes de Copenhagen, na Dinamarca, e curso de Administração de Projetos de Irrigação ministrado pelo Banco Mundial, em Fenix, no Arizona.

Homenageada pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal (CAU/DF) no Dia Internacional da Mulher em 2008, a profissional afirma ver a arquitetura e urbanismo evoluindo nos últimos anos, principalmente, em função do avanço tecnológico. “Porém, não é a tecnologia que vai te ensinar a ser arquiteto e urbanista, mas a sua cabeça e sua criatividade”, enfatiza. Ela cita o pensamento de Leonardo da Vinci: “a arte é coisa mental” e lembra da importância da ética na atuação profissional. “A arte acontece primeiro na sua cabeça. Depois, você a coloca no papel. E essa é a verdade sobre a Arquitetura e Urbanismo”, sinaliza Elza.

 

Leticia Szczesny/ Imprensa FNA